Marcelo Tas

Olhar Eletrônico
A inovação sempre esteve presente na vida de Marcelo Tas, o apresentador do programa Vitrine, da TV Cultura, que já desenvolveu inúmeros projetos pioneiros e vencedores na televisão brasileira: o irreverente repórter Ernesto Varella; o Crig-Rá, um dos programas pioneiros voltados para o público jovem; as aulas do Telecurso 2000; o premiado programa infantil Rá-Tim-Bum, veiculado pela mesma TV Cultura, o divertido Programa Legal, apresentado por Regina Casé… Tas fez parte de todos eles, como roteirista, criador ou, então, como ator e é, com certeza, a chamada "lenda-viva" da história da TV brasileira.

 

Comandado por Tas há três anos, o Vitrine é veiculado todas as quartas-feiras, às 22h30, e deve boa parte de seu atual sucesso ao formato totalmente voltado para a Internet. "Foi o primeiro programa que trouxe a Internet para a TV aberta. No princípio, recebíamos muitas críticas, mas aprendemos a fazer o Vitrine lado a lado com o nosso público. E tem dado supercerto!"
O programa foi ao ar pela primeira vez dez anos atrás, focado basicamente em reportagens de bastidores. Após a reformulação que concebeu o formato atual, o Vitrine tem alcançado as maiores audiências de toda a sua história, além de uma enorme interação com o público que, de fato, colabora muito na definição da pauta e na realização do programa. A ferramenta que possibilita a grande interação do Vitrine com o seu público é o blog - nome que define um site destinado à discussão sobre assuntos variados - que vem se popularizando em larga escala na Internet mundial. "O site do Vitrine tornou-se um grande blog, que realimenta o programa a todo instante."
Enquanto o Vitrine está no ar, as pessoas discutem o tempo inteiro, minuto a minuto, dentro da sala de bate-papo, o que está sendo apresentado. Todos nós ficamos sabendo, em tempo real, o que está agradando ou não os nossos telespectadores." Um erro de português ou uma discussão sem grandes conclusões são alertados imediatamente por quem acompanha o programa, exigindo de Tas a correção ou um comentário a respeito no calor do momento: "Essa troca de informações é que dá a dinâmica para o programa."
O blog também é usado pela produção do Vitrine para discussão de idéias com o público, que interage já muito antes do programa ir ao ar, sugerindo diferentes abordagens para os temas que serão tratados. "O nosso blog capta dicas muito interessantes sobre como devemos conduzir certas entrevistas, por exemplo! É o chamado Ibope inteligente."

Guerra de audiência

Aliás, falando sobre Ibope, Tas considera a medição atual de audiência (em número de televisores ligados) como sendo uma alternativa "burra e grosseira". "O chat utilizado pelo Vitrine, por exemplo, é uma medição inteligente. O telespectador faz o seu comentário no exato momento em que está assistindo aquela atração. O retorno que nós temos é incrível. Quando as pessoas percebem que estão sendo ouvidas, passam a responder com qualidade às suas perguntas. Para um profissional de comunicação, isso é fascinante!"
É justamente a preocupação em criar programas baseados em novas idéias e formatos que tem motivado as ações da TV Cultura. TV pública financiada pelo governo do Estado de São Paulo, a Cultura efetivamente não dispõe de recursos e equipamentos para fazer frente a um canal privado, mas ainda assim, por conta da qualidade de sua programação, sobressai-se ao ser comparada com diversas outras TVs públicas ao redor do mundo. "Nunca uma emissora pública chegou a empatar com uma emissora privada em termos de audiência, como aconteceu com a Cultura na época do programa infantil Rá-Tim-Bum. Foi uma fato inédito e eu fico muito orgulhoso por ter sido um dos criadores do projeto, na sua primeira edição."
O apresentador salienta que a Cultura consegue manter um Ibope de qualidade e não de quantidade, o que é mais importante. "O Ibope do programa do Jô não chega a dez pontos -- muito inferior aos 45 da novela das oito -, mas todas as pessoas que assistem ao Jô prestam atenção. Não estão simplesmente com a TV ligada, enquanto lêem o jornal, cozinham ou conversam, como acontece com vários programas que têm Ibope alto. É por isso que a medição de audiência deve ser modificada e os anunciantes já estão de olho nisso."

Ernesto Varella

O repórter ErnestoVarella foi um marco na TV brasileira e na carreira de Marcelo Tas. Por meio do grupo de teatro de Antunes Filho, Tas conheceu as pessoas que, mais tarde, vieram a montar a produtora de vídeo Olhar Eletrônico, onde foi criado o irreverente repórter. "O Varella nasceu na época em que os repórteres eram muito certinhos, quando a censura era pesada e eles tinham pouca liberdade para fazer perguntas." Na contramão, aparecia um Varella sempre irreverente! Como era "ficção", o repórter tinha uma certa "imunidade parlamentar", como Tas o define, e só ele fazia perguntas proibidas e estranhas.
O personagem proporcionou momentos inesquecíveis a Tas. Com ele foi possível
dialogar com grandes figuras da República, viajar por todo o Brasil e ainda participar de momentos históricos, como a campanha das Diretas, em 1984. Mas Varella não fazia somente reportagens políticas. Entre outros eventos marcantes, ele participou da transmissão da Copa do Mundo de futebol no México, em 1986, pelo SBT, e também de diversos quadros de comportamento para o Fantástico, na TV Globo.
Recentemente, a rádio Rock FM 89,1 de São Paulo (www.89fm.com.br), ressuscitou Varella, que reapareceu fazendo entrevistas por telefone. "Pegava pessoas em situações inusitadas, como, por exemplo, o jogador de futebol que matou o treino para passear no shopping e nem a mulher dele sabia que ele estava lá."
Na pele de Ernesto Varella, Tas viveu uma experiência marcante quando viajou para a antiga União Soviética, em 1985. O país ainda não tinha passado pela sua abertura política e Varella já saia às ruas para perguntar ao povo qual seria a próxima revolução soviética. "Ninguém entendia a minha pergunta e muitos ficavam bravos, achando que não ocorreria nenhum outro acontecimento neste sentido! Um ano depois, a situação tomou uma direção completamente inesperada a partir das aberturas política e econômica introduzidas por Mikhail Gorbachev… a revolução aconteceu!"


 
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